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07/07/2012 - Por: Arquivo da Biblioteca da SEAMB
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A Morte
 

 

No extremo pólo da vida

Diz a Morte: – “Humanidade,

Sou a espada da Verdade

E a Têmis do mundo sou;

Sou balança do destino,

O fiel desconhecido,

Lanço Cômodo no olvido

E aureolo a fronte de Hugo!

 

O cronômetro dos séculos

Não me torna envelhecida;

Sou morte – origem da vida,

Prêmio ou gládio vingador.

Sou anjo dos desgraçados

Que seguem na Terra errantes,

Desnorteados viajantes

Dos Niágaras da dor!

 

Também sou braço potente

Dos déspotas e opressores,

Que trazem os sofredores

No jugo da escravidão;

Aos bons, sou compensação,

Consolo e alívio aos precitos,

E nos maus aumento os gritos

De dores e maldição.

 

Sepultura do presente,

Do porvir sou plenitude,

Da alegria sou saúde

E do remorso o amargor.

Sou águia libertadora

Que abre, sobre as descrenças,

O manto das trevas densas,

E sobre a crença o esplendor.

 

Desde as eras mais remotas

Coso láureas e mortalhas,

E sobre a dor das batalhas

Minha asa sempre pairou;

Meu verbo é a lei da Justiça,

Meu sonho é a evolução;

Meu braço – a revolução,

Austerlitz e Waterloo.

 

Homem, ouve-me; se às vezes

Simbolizo a guilhotina,

Minha mão abre a cortina

Que torna o mistério em luz;

E por trabalhar com Deus,

Na absoluta eqüidade,

Sou prisão ou liberdade,

Nova aurora ou nova cruz.

 

Se o cristal que imita o céu

Da consciência tranqüila

É o luzeiro que cintila

Na noite do teu viver,

Oásis – dou-te o repouso,

Estrela – estendo-te lume,

Flor – oferto-te perfume,

Luz da vida – dou-te o ser!

 

Mas, também se a tirania

Arvora-se em lei na Terra,

Eu mando a noite da guerra

Fazer o sol do porvir;

Arremesso a minha espada,

Ateio fogo aos canhões,

Faço cair as nações

Como fiz Roma cair.

 

Foi assim que fiz um dia,

Ao ver o trono imperfeito

Estrangulando o Direito;

Busquei Danton, Mirabeau...

E junto ao vulto de Têmis

Tomei o carro de Jove,

E fiz o Oitenta e Nove

Quando a França me ajudou.

 

Então, implacavelmente,

Fiz a Europa ensangüentada

Ajoelhar-se humilhada,

Diante de tanto horror.

Das cidades fiz ossuários,

Dos campos Saaras ardentes,

Trucidei réus inocentes,

Apaguei a luz do amor,

 

Até que um dia o Criador

Sempre amoroso e clemente,

Que jamais teve presente,

Nem passado nem porvir,

Bradou do cume dos céus

Num grito piedoso e forte:

“Não prossigas! Basta, Morte,

Agora é reconstruir.”

 

Portanto, homem, se tens

Por bússola o Bem na vida,

Olha o Sol de fronte erguida,

Espera-me com fervor.

Abrir-te-ei meus tesouros,

Serei tua doce amante,

Cujo seio palpitante

Guardar-te-á – paz e amor.

 

Se às vezes se te afigura

Que sou a foice impiedosa,

Horrenda, fria, orgulhosa,

Que espedaça os teus heróis,

Verás que sou a mão terna

Que rasga abismos profundos,

E mostra biliões de mundos,

E mostra biliões de sóis;

 

Conduzo seres aos Céus,

À luz da realidade;

Sou ave da liberdade

Que ao lodo da escravidão

Venho arrancar os espíritos,

Elevando-os às alturas:

Dou corpos às sepulturas,

Dou almas para a amplidão!

 

A Morte é transformação,

Tudo em seu seio revive:

Esparta, Tebas, Nínive,

Em queda descomunal,

Revivem na velha Europa;

E como faz às cidades,

Remodela humanidades

No progresso universal.

 

 

Castro Alves, no livro “Parnaso de Além-Túmulo”,

psicografia de Francisco Cândido Xavier.

 

 
 
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